Estudos sobre o impacto da COVID-19 na economia e no mundo do trabalho apresentam um cenário desolador. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a economia global enfrentará o pior desempenho desde a Grande Depressão em 1929.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê que cerca de 25 milhões de trabalhadores percam seus empregos devido à pandemia. Além do desemprego, o subemprego também deverá aumentar em larga escala. A previsão é que o número de pessoas trabalhando para garantir o mínimo à subsistência cresça em até 35 milhões em todo o mundo.

Nesse cenário, determinados grupos de trabalhadores serão desproporcionalmente afetados. De acordo com o relatório da OIT, os trabalhadores idosos estarão entre os mais vulneráveis à crise do emprego.

No Brasil, já é possível contabilizar um número expressivo de cortes na jornada de trabalho, suspensão de contratos e demissões. Se as tendências se confirmarem, assim como os médicos estão se deparando com a cruel necessidade de decidir quem vive e quem é enviado para casa para morrer, em breve, os gestores das empresas terão que escolher quem permanecerá empregado e quem irá para casa, sem perspectivas de renda e recolocação durante a crise, que não tem prazo para acabar.

Foi pensando nisso que eu decidi escrever este artigo. Ele não tem o intuito de ser exaustivo, mas de oferecer uma análise inicial, com base em observação e dados da dinâmica do desemprego frente à pandemia, que foram obtidos através de uma parceria da WeAge com a LABORe e o Laboratório do Futuro da COPPE/UFRJ.

A ideia é fazer um alerta e apontar caminhos para mitigar o impacto do coronavírus na vida de milhões de trabalhadores, ajudando os empregadores a definir como suas marcas serão lembradas pelas próximas décadas.

Vulnerabilidade e desemprego 

Se você está se perguntando como fica o emprego dos trabalhadores idosos, tenha certeza de que esta é uma excelente pergunta… e a resposta não é nada trivial.

Por mais que o segmento de emprego para trabalhadores idosos esteja em ascensão e que eles estejam protagonizando um envelhecimento ativo através do trabalho, existem questões específicas que os tornam mais vulneráveis.

Em primeiro lugar, os trabalhadores idosos constituem o grupo de risco com maior mortalidade pela COVID-19, resultado da associação do coronavírus – que não é ‘doença de velho’ – a doenças preexistentes típicas da idade avançada.

Em segundo lugar, o trabalho flexível e remoto é um modelo novo para grande parte desse contingente de trabalhadores, que construiu sua carreira nos moldes do trabalho presencial. A transição é perfeitamente possível, mas demanda algum tempo de adaptação, estratégia e estrutura.

Um terceiro ponto é que para mitigar o alto risco para a saúde, os trabalhadores idosos foram os primeiros a entrar no sistema de distanciamento físico e, provavelmente, serão os últimos a deixá-lo. Isso fará com que o período de afastamento do ambiente de trabalho seja maior para eles do que para trabalhadores de outras faixas etárias.

Ainda não existem muitos dados disponíveis para dimensionarmos, com precisão, o impacto sobre os trabalhadores idosos no Brasil. Mas através de uma parceria da WeAge com a LABORe e o Laboratório do Futuro da COPPE/UFRJ foi possível estimar que 14% dos trabalhadores do setor de serviços serão demitidos no horizonte de um ano. Das 6,7 milhões de demissões esperadas, 1,2 milhão será de trabalhadores com 50 anos ou mais, o que representará 18% do total de demissões do setor.

Ainda de acordo com o estudo, dos mais de 90 mil trabalhadores com 65 anos ou mais, que estavam empregados antes da pandemia se propagar no país, 13% devem ser demitidos. Na faixa etária de 50 a 64 anos, dos pouco mais de 1,1 milhão empregados, o número de demitidos poderá alcançar 14%.

O estudo não considera aspectos qualitativos. Por isso, eu chamo atenção para a possibilidade desses números se tornarem ainda maiores, dependendo de como as empresas e seus gestores decidirem gerenciar a força de trabalho madura durante a crise.

O quarto fator que justifica a maior vulnerabilidade dos trabalhadores idosos é que o preconceito pode fazer com que a idade avançada ganhe força como critério para demissão, sobrepondo-se ao histórico de desempenho e potencialidades do trabalhador.

Reduzimos o contágio, mas fomentamos o preconceito

Sabemos que os trabalhadores idosos vêm conquistando espaço no mercado de trabalho gradualmente. Mas a discriminação etária no ambiente de trabalho não é segredo para ninguém. Ocorre que a CODIV-19 trouxe um agravante para essa situação.

Na China, a COVID-19 teve o maior número vítimas registrado entre a população idosa. Os jovens foram estigmatizados por conta disso. No Brasil, 16% da população são formados por pessoas idosas. Aqui as recomendações de prevenção sublinhadas para essa população têm causado efeitos colaterais adversos: os conflitos intergeracionais têm se tornado mais nítidos e o preconceito contra as pessoas idosas vem ficando mais evidente.

Nas últimas semanas, as redes sociais foram alimentadas com memes que chamaram a atenção para essa população. Projetando figuras que foram de idosos fujões a caminhão ‘cata-véio’, passando por gaiolas de idosos, essas postagens foram intensamente disseminadas.

Não demorou muito para surgirem publicações de filhos arrastando suas mães à força para dentro de casa e de notícias falsas, como a de que o governo cancelaria a aposentadoria dos idosos que fossem vistos ‘em circulação’ nas ruas.

É claro que o humor é uma ferramenta poderosa de conscientização das massas acerca de problemas complexos. Mas não há nada de engraçado em sujeitar pessoas idosas (aliás, qualquer pessoa!) a esse tipo de exposição pejorativa sobretudo em momentos tão dramáticos.

Já está mais do que na hora de pararmos de rir de tudo, de achar aquela graça inconsequente de quem não pondera que uma ‘inofensiva’ postagem em uma ‘inofensiva’ rede social pode custar o lugar de uma pessoa. O lugar na família, na comunidade, no leito hospitalar, no ambiente de trabalho, na sociedade.

Cada vez que compartilhamos uma imagem dessa natureza, estamos colaborando para fixar, ainda mais, a ideia equivocada de que todas as pessoas idosas são iguais, extremamente frágeis, intransigentes ou incapazes de tomar boas decisões. Quando esse estigma extrapola o universo das redes sociais, os resultados podem ser ainda mais desastrosos.

A imprensa internacional relatou que o atendimento a pessoas idosas vítimas de COVID-19 estaria sendo negado apesar de haver evidências de que a recuperação é possível mesmo para indivíduos que beiram os 100 anos. O fato é que a idade se tornou critério decisivo mais óbvio para julgar quem teria a oportunidade de ser salvo e quem sequer poderia tentar.

Li também inúmeras matérias que enalteciam uma senhora idosa que renunciou ao respirador para que outro paciente, mais jovem, pudesse recebê-lo. Respeito totalmente a decisão de Suzanne, belga, de 90 anos. Mas não simpatizo nem um pouco com algumas colocações da mídia, que pareceram pretender encorajar essa atitude entre as pessoas idosas.

Esse estigma reforçado pelos memes nas redes sociais também pode reverberar no mercado de trabalho, reforçando mitos de que trabalhadores idosos são resistentes a mudanças; que possuem dificuldades para aprender novas tecnologias, para se relacionar com trabalhadores de outras gerações, ou mesmo, para se adaptar a novos modelos de trabalho.

Os efeitos invisíveis da demissão de trabalhadores idosos

O trabalho é de tal forma importante na vida dos trabalhadores idosos, que não apenas ajudou a definir como eles vivem – e viveram – todas as fases do seu curso de vida, mas, também, como pensam, agem e sentem, como transmitem seu conhecimento para outras gerações e, principalmente, como percebem o seu lugar na sociedade e a realidade da finitude de suas próprias vidas.

A ocupação com o trabalho os desvia da predominância do ‘assunto morte’, do relógio fazendo tic-tac na alma, ao mesmo tempo que permite que eles desfrutem da oportunidade de viabilizar um envelhecimento ativo e sustentável.

Durante minha pesquisa de campo no mestrado, conversei com dezenas de trabalhadores que já eram elegíveis à aposentadoria, mas não queriam para de trabalhar. A escuta dos trabalhadores permitiu identificar oito razões distintas para o prolongamento da carreira: (1) a convicção da sua capacidade laboral e produtiva; (2) a contingência financeira; (3) a conservação do padrão de vida; (4) a satisfação pessoal e o bem-estar; (5) a construção de legados; (6) o sentimento de utilidade; (7) a preservação das relações sociais; e (8) o vício em trabalho. Escreverei sobre o assunto mais detalhadamente em um novo artigo.

Para o momento, vale destacar que a demissão de trabalhadores idosos não impacta somente o indivíduo e sua íntima relação com o trabalho, mas também, a família e a economia porque ocasiona:

  • Aumento da dependência: demitir um trabalhador idoso em meio a uma crise do emprego, significa que além de não ter provisão referente à atividade profissional, o tempo de espera necessário para se tornar elegível à aposentadoria poderá aumentar significativamente, se ele não conseguir uma rápida recolocação. Sem renda, as pessoas idosas se tornam dependentes das pessoas em economicamente ativas. Cabe ressaltar que quanto maior a razão de dependência da população idosa, maiores serão os gastos do governo com assistência no campo da saúde, dada a elevação dramática de doenças crônicas.

  • Empobrecimento familiar: idosos são chefes de uma em cada cinco famílias brasileiras, de acordo com a FGV. Chegam a sustentar quatro gerações. Se o chefe da família, perde a renda da atividade produtiva, a sobrevivência de toda a família fica comprometida. Em níveis extremos, a ausência de renda pode levar à óbito. Pelo menos 5 mil pessoas com 60 anos ou mais morreram por desnutrição no Brasil em 2016. De acordo com dados do Datasus, o número de brasileiros com mais de 60 anos cresceu 231% nesses anos, e as mortes por falta de nutrição adequada, entre eles, subiram 365%.

  • Suicídio: de acordo com dados do Ministério da Saúde, os indicadores de suicídio entre idosos vem crescendo por influência de fatores individuais e sociais, como dependência, falta de apoio social, aposentadoria, solidão, depressão, diagnóstico de doenças graves e perda de referências sociais.

80 x 20: a fórmula do desemprego que precisamos evitar

Com a popularidade das campanhas de prevenção e dos memes nas redes sociais, as pessoas idosas saíram da condição de invisibilidade social direto para a berlinda da pandemia. E esse, definitivamente, não é um bom lugar para ficar.

Vale lembrar que a meta do governo brasileiro é subsidiar até 80% dos empregos formais. Portanto, a meta de todos nós deve ser que os trabalhadores idosos não sejam os outros 20% que ficarão sem emprego.

Para isso, é preciso aprender a filtrar o conteúdo que compartilhamos nas redes e combater quaisquer atitudes que possam reforçar o preconceito e a discriminação dos trabalhadores idosos.

No mais, é responsabilidade do governo socorrer os empregadores e é responsabilidade dos empregadores adotar medidas extras para:

  1. proteger os colaboradores contra o contágio pela COVID-19 e, ao mesmo tempo, contra a discriminação etária;

  2. preservar o emprego e a renda do número máximo de trabalhadores idosos, tentando, no mínimo, espelhar o perfil etário da população na força de trabalho da empresa; e

  3. no caso de inevitável suspensão de contratos, redução da jornada ou demissão, garantir todos os benefícios a que os trabalhadores já têm direito e associar novas formas de apoio, que enderecem demandas surgidas com a pandemia.

Todos nós enfrentaremos tempos difíceis e o caminho que as empresas escolherem para lidar com seus colaboradores durante a pandemia certamente, será lembrado por décadas.

Em linhas gerais, a orientação primordial é preservar vidas, mantendo o maior número possível de colaboradores atuando no modelo de trabalho remoto, de forma assistida e estruturada.

Em segundo lugar, concentrar esforços em manter o emprego do maior número de colaboradores pelo maior tempo possível. Não se precipitar diante de especulações. Abrir a mente para inovações e não desistir antes de esgotar o último dos recursos.

Boas práticas para os empregadores

Usando como base as dimensões gerenciais do modelo de gestão da longevidade desenvolvido pela WeAge, listei uma série de perguntas que irão ajudar as empresas nos primeiros passos desse processo. Elas estão divididas em duas partes:

Considerações de curto prazo

Cultura

  • A comunicação fornece informações seguras e ajuda os trabalhadores a filtrar notícias falsas sobre a COVID-19, visando promover a saúde mental e a segurança dos seus colaboradores?

  • A empresa investe esforços para que todos os trabalhadores compreendam os riscos da COVID-19 e cumpram as diretrizes recomendadas para reduzir a propagação da doença?

  • A empresa se estruturou para monitorar os trabalhadores que estão em casa, de forma a verificar se as instruções de prevenção estão sendo seguidas durante o modelo de trabalho remoto?

  • É verificado se os colaboradores estão sofrendo algum tipo de constrangimento ou perda associados à idade?

  • A comunicação adota medidas que comprovem que a vida de cada colaborador é importante para a empresa?

  • Os colaboradores podem ser envolvidos em algum tipo de atividade voluntária, intergeracional, liderada pela empresa, sem risco de contágio?

  • A menor volatilidade emocional dos trabalhadores idosos está sendo potencializada de alguma forma?

Gestão de pessoas

  • A empresa está proporcionando treinamento para que os gestores entendam como as habilidades específicas dos colaboradores idosos podem ser úteis na crise e na retomada? Eles estão prontos para endereçar os desafios específicos desses colaboradores frente à pandemia?

  • O pagamento do salário e dos benefícios aos empregados poderá ser mantido, seja com recursos da empresa ou com subsídio do governo?

  • Os colaboradores idosos da sua empresa recebem algum outro tipo de aposentadoria ou pensão como renda complementar?

  • Eles estão cobertos por apólices de seguro ou a provisão existente termina em uma certa idade? O pagamento da mensalidade do seguro de vida desses empregados está em dia?

  • A empresa tem o mapa dos colaboradores jovens e adultos que vivem com pessoas idosas? Alguma ação de suporte foi direcionada a eles?

  • Dada a crescente probabilidade de que os trabalhadores cuidem de parentes doentes, que disposições existem para os cuidadores?

Organização do trabalho

  • Os trabalhadores idosos estão trabalhando em modelo remoto?

  • O que pode ser feito para reduzir o impacto do auto isolamento na saúde física e mental dos trabalhadores?

  • Os colaboradores foram abastecidos de suprimentos (máscaras, álcool gel, sabão, água potável) para prevenção do contágio em casa?

  • Eles possuem infraestrutura, mobiliário adequado e equipamentos necessários ao trabalho remoto?

Gestão do conhecimento

  • Como a transferência de conhecimento será facilitada em trabalhos essenciais?

  • Existem planos rápidos de sucessão de trabalhadores que podem ser implementados?

  • A empresa disponibilizou treinamento em planejamento financeiro para que os colaboradores percebam as melhores práticas de gestão financeira durante a crise econômica?

Considerações de longo prazo

Pela experiência dos países que experimentaram o pico de transmissão da COVID-19 antes do Brasil, nós podemos supor que não há prazo determinado para controlar a pandemia. Teremos longos meses com um cenário econômico completamente diferente do que tínhamos antes e alguns desafios de longo prazo que envolvem os trabalhadores idosos precisarão ser pensados desde já.

Cultura

  • Trabalhadores que retornarem poderão sofrer algum tipo de discriminação por estarem no grupo de risco?

  • As lições aprendidas acerca dos trabalhadores idosos foram aprendidas? Elas serão utilizadas para transformar a cultura da empresa?

Gestão de pessoas

  • A empresa está proporcionando treinamento para que os gestores entendam como as habilidades específicas dos colaboradores idosos podem ser úteis na retomada das atividades?

  • A empresa está pronta para aproveitar todo o potencial dos trabalhadores com 50+ anos quando eles retornarem?

Organização do trabalho

  • Os colaboradores já aposentados, irão retornar para a força de trabalho?

  • Como eles serão readaptados ao ambiente de trabalho após o longo período de isolamento? Algum programa de reabilitação será necessário?

  • Existe alguma flexibilidade que permita que os trabalhadores idosos retornem ao trabalho parcialmente até que obtenham sua aposentadoria?

  • Como as potencialidades desses trabalhadores serão desenvolvidas após a retomada?

Gestão do conhecimento

  • O conhecimento dos trabalhadores idosos acerca do negócio poderá agilizar a retomada da empresa?

  • Existe um plano de sucessão para o caso desses trabalhadores não retornarem?

O impacto de longo prazo das perdas para o coronavírus ainda são difíceis de estimar. Certo mesmo é que quanto antes as empresas conseguirem se preparar para lidar com os novos desafios, maior será a chance de sucesso no momento de retomada.