A relutância das empresas em empregar trabalhadores 50+ está custando à economia australiana em torno de 10 bilhões de dólares por ano.
Os economistas afirmam que a discriminação em torno da contratação de pessoas dessa faixa etária exerce pressão sobre os recursos públicos e que dar emprego aos australianos mais vividos ajudaria a estimular uma economia em desaceleração, como relata Caroline Winter.
Vicky Jonas, uma das proprietárias de um café no subúrbio leste de Adelaide, é uma figura fácil de se localizar. Seu cabelo curto cor de cobre com óculos de borda preta, batom vermelho e casaco elegante impressionam, exibem confiança e senso de individualidade.
“Sempre adorei moda como uma expressão de mim mesma. Dito isto, uma das minhas frustrações hoje em dia é não existirem escolhas para as pessoas a partir de certa idade”, ela destaca.
Aos 67 anos, Vicky Jonas se considera jovem por muitos motivos, mas ela diz que não é assim que a sociedade trata as pessoas da sua idade.
“Sinto-me frustrada com o estereótipo que as pessoas mais vividas ganharam estando em um grupo específico em vez de serem percebidas como indivíduos. Uma coisa em particular com que me sinto frustrada é com desrespeito, desvalorização das competências, experiência, conhecimentos e sabedoria dos australianos mais vividos no ambiente de trabalho”, diz ela.
Mesmo tendo um alto nível de educação, com competências digitais avançadas, a discriminação etária na força de trabalho é algo que Vicky Jonas j experimentado.
“Já aconteceu uma situação no passado, por volta dos 50 anos de idade, em que me candidatei a um determinado cargo e, apesar de ter conhecimentos e experiência superiores aos de qualquer outro candidato, não fui considerada para o cargo porque já tinha ultrapassado uma certa idade. Obviamente, não é algo falado abertamente pelo recrutador para mim, mas fico bastante chocada com isso”.
Ouvimos cada vez mais que os trabalhadores 50+ passam por uma situações de discriminação pela idade e eles sabem o que está acontecendo.
“Fizemos algumas conversas preliminares com os empregadores e, em um dado momento, notamos que a preferência é a de não ter trabalhadores mais vividos”, explica Jay Misread, CEO do Conselho de Envelhecimento da Austrália do Sul.
É relatado que quase 1/3 (um terço) dos australianos idosos já sofreram discriminação com base na idade enquanto trabalhavam ou durante a procura por emprego.
Jay Misread diz que essa tendência é um alerta, considerando o envelhecimento da população, que aumenta a expectativa de vida e previdência social para os australianos mais vividos.
Não menos importante é a situação das mulheres, que além de tudo, lutam contra as disparidades salariais em relação aos homens e contam com menos recursos na aposentadoria, o que gera ou acentua a condição de pobreza ou a falta de habitação.
“Se você perder seu emprego como uma pessoa mais vivida, então é provável que você fique procurando emprego em torno de 188 semanas. É um prazo muito mais longo do que qualquer outra faixa etária e não há nada que você possa fazer a respeito”.
Nem do ponto de vista econômico faria sentido marginalizar os trabalhadores 50+
Segundo especialistas, trabalhadores com mais de 55 anos representam atualmente apenas 16% da mão de obra total da Austrália.
E embora as taxas de participação entre os trabalhadores mais vividos (particularmente as mulheres) tenham crescido nos últimos anos, empregar mais 1% do grupo de potenciais trabalhadores mais vividos a cada ano poderia valer mais 10 bilhões de dólares anuais para a economia australiana.
Dug Ross, economista diretor da Deloitte, explica que “a economia assistiria a um aumento de cerca de 0,5%, o que constitui uma enorme oportunidade para aproveitarmos nas próximas décadas e aumentar substancialmente a dimensão da mesma”.
No cenário atual, esta poderia ser uma forma de as empresas contribuírem para estimular uma economia em desaceleração, beneficiando simultaneamente os resultados nos campos social e da saúde, reduzindo a dependência da assistência social e ajudando os empregadores a mitigar o déficit de habilidades contratando trabalhadores qualificados e experientes.
Mas Doug Ross adverte que embora a taxa de participação dos trabalhadores mais vividos esteja alcançando as expectativas, ainda há áreas com atitudes ultrapassadas e que a discriminação etária atrasa ainda mais a nação.
“Os custos do envelhecimento da população são reais, consideráveis e acontecerão, mesmo nos adaptando ou não. Por isso, nesse ambiente o melhor que podemos fazer é utilizar as habilidades, a experiência e a dedicação de todos os trabalhadores para ajudar a enfrentar esses desafios, ao invés de esperar que esses desafios nos derrotem sem qualquer retorno”, diz Doug.
Vicky Jonas vem fazendo algo diferente. Ela foi forçada a uma aposentadoria não intencional para cuidar de sua mãe idosa e se recusa a deixar que seus anos de experiência e educação sejam desperdiçados.
Agora aos 67 anos e depois de lutar contra alguns dos seus próprios problemas de saúde, ela se prepara para lançar o seu próprio negócio, ajudando 12 estudantes a atingir o seu maior potencial.
“Depois de 34 anos me especializei em algo que me apaixona, acredito que seja algo valioso e é minha maneira de contribuir, retribuir à comunidade e à sociedade na qual vivo”
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Créditos:
Livre tradução do podcast de Caroline Winter “The cost of not employing older workers”, publicado originalmente em https://radio.abc.net.au/programitem/pgo6RNPbg6