EUA – É fato: em nosso sistema previdenciário quebrado, milhões de americanos idosos carecem de meios para sobreviver com dignidade após a aposentadoria.

Gastar dinheiro à toa – beber muitos cafés caros – não é a razão pela qual a maioria dos americanos não tem aposentadorias decentes. 

Os trabalhadores querem uma aposentadoria integral e estão dispostos a assumir a responsabilidade por ela. Mas o sistema voluntário e comercial do “faça você mesmo” fez o plano de aposentadoria americano falhar.

Alguns formadores de políticas (tipicamente saudáveis e felizes atuando como acadêmicos ou senadores) propuseram uma política de “free-lunch”: americanos podem trabalhar por mais tempo. O resultado é todo o ganho com nenhum custo.

Mas existem muitas razões pelas quais trabalhar por mais tempo não funciona como esperamos.

A pergunta é: Quanto tempo podemos trabalhar?

A conclusão é simples: o conselho para trabalhar mais tempo não é uma solução real no caso da maioria dos trabalhadores idosos, visto que a discriminação etária generalizada faz com que esses trabalhadores sejam normalmente demitidos ou afastados do emprego antes de estarem prontos para se aposentar.

A tese da carreira mais longa

Uma estatística é suficiente para lançar sérias dúvidas sobre a tese da carreira mais longa: cerca de metade dos trabalhadores idosos são essencialmente forçados a se aposentar.

Tratando-se de demissão, de problemas de saúde, de assistência à família ou simplesmente de “envelhecer fora de casa”, os dados mostram que 52% dos aposentados se retiram da força de trabalho involuntariamente.

A ideia de trabalhar mais tempo não é factível quando o emprego é tão incerto para os trabalhadores idosos

As interrupções de carreira parecem ser mais prováveis à medida que se envelhece, seja por motivo de saúde, família ou outra coisa qualquer. A proximidade da idade da aposentadoria faz com que esse momento tenha mais consequências.

Stephanie, 46 anos, trabalhou na indústria publicitária até que essa carreira chegou ao fim abruptamente. “Eu estava subindo na carreira muito rapidamente, e pensei que isso não pararia. Mas eu tinha o teto de vidro e bati nele com muita força,” disse ela.

Aparentemente, a experiência dela não é incomum no mundo jovem e dominado por homens da publicidade. “Eles literalmente chamam isso de envelhecer,” Stephanie disse. 

Agora Stephanie dirige seu próprio negócio de aconselhamento. Mas à medida que esse empreendimento se iniciou, suas poupanças para a aposentadoria estagnaram.

Stephanie agora tem que descobrir como – e se – ela vai se aposentar. “Eu não estou mais pensando na aposentadoria como um conceito”, disse Stephanie.

“As pessoas olham para você de uma maneira diferente”

A discriminação em razão da idade e os preconceitos contra os desempregados bloqueiam os idosos que pretendem trabalhar após uma perda de emprego involuntária.

Mikhail, 52 anos, regressou recentemente ao mercado de trabalho após uma série de contratempos: dificuldades conjugais, uma crise de saúde e a perda do seu “emprego confortável e bem pago” em um escritório de advogados.

Apesar de suas habilidades e experiência, Mikhail sente que sua idade trabalha contra ele. “Quando você chega perto dos 50 anos, as pessoas olham para você de uma maneira diferente”, disse Mikhail.

Mikhail não está sozinho. As evidências mostram que os trabalhadores mais velhos desempregados têm dificuldade em se recolocar e são mais propensos a aceitar uma redução no salário para conseguir trabalhar novamente.

Como resultado de seus contratempos, Mikhail espera trabalhar mais tempo e se aposentar mais tarde. “Meu horizonte para aposentar deu um passo para trás agora. Tive que mergulhar nas minhas poupanças da aposentadoria por causa dos dois anos que se passaram”, disse Mikhail.

De certa forma, o adiamento da aposentadoria de Mikhail é o que alguns especialistas querem para nossa força de trabalho idosa.

Mas sua luta pelo emprego provavelmente não é a situação que os defensores do trabalho por tempo prolongado têm em mente. Infelizmente, a perda de perspectivas de emprego é a regra para muitos trabalhadores idosos.

Lutar pela reforma

A discriminação em razão da idade é apenas um fator que torna o trabalho mais longo e difícil. Como o economista de aposentadoria, Tony Webb explicou a tese da carreira mais longa se baseia em suposições que nem sempre se sustentam no confuso mundo real.

“As planilhas do Excel assumem que se você trabalhar até os 65 anos, estará bem”, disse Webb, referindo-se aos tipos de conselhos baseados em modelos teóricos de vidas humanas.

“Eles não representam a vida como ela realmente é, especialmente para a classe trabalhadora que normalmente realiza trabalho manual, mas mesmo para os trabalhadores de colarinho branco que são igualmente vulneráveis à perda involuntária de emprego.

Naturalmente, podem haver alguns benefícios potenciais de trabalhar por mais tempo, como a interação social saudável e um sentimento de propósito. Mas, tipicamente, são aqueles que já estão em melhor situação que conseguem desfrutar desses benefícios – geralmente médicos, advogados.

Atrasar a aposentadoria não é uma escolha para os trabalhadores com problemas de saúde, por exemplo.

O debate sobre o trabalho prolongado cria assim um dilema intratável para os trabalhadores idosos que enfrentam dificuldades no mercado de trabalho.

Alguns são involuntariamente aposentados, e deixam a força de trabalho bem antes do que pretendiam. Outros que enfrentam choques de meio ou fim de carreira, como Stephanie e Mikhail, se perguntam se algum dia realmente poderão se aposentar.

No lado positivo…

Embora histórias como as de Mikhail e Stephanie sejam muito comuns, outra história também se tornou prevalente: a dos trabalhadores idosos lutando contra a demissão injusta.

A colaboradora da Forbes, Sheila Callaham, descreveu recentemente um “surto de ação legal” que ocorre entre os principais empregadores americanos.

Empresas que enfrentam alegações de discriminação por idade incluem Citibank, IKEA, Google e IBM – esta última foi objeto de uma longa investigação por Peter Gosselin, da ProPublica, sobre as demissões supostamente discriminatórias da empresa de mais de 20.000 trabalhadores com mais de 40 anos.

Callaham prevê que a recente série de ações judiciais “se tornará igual para os trabalhadores idosos, já que obrigarão as empresas a reconhecer que assim como o racismo e o sexismo, a discriminação etária não é apenas excludentes, mas também ilegal”.

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Créditos:

Foto: divulgação.

Tradução livre do artigo de Teresa Ghilarducci “Is Working Longer The Solution To The Retirement Crisis?”, publicado originalmente em https://www.forbes.com/sites/teresaghilarducci/2019/09/03/is-working-longer-the-solution-to-the-retirement-crisis/#705ee8892373